5. COMPORTAMENTO 15.5.13

1. DEPOIS DO INFERNO
2. CRAQUES DA PROPAGANDA
3. O BRASIL PRECISA IMPORTAR MDICOS?

1. DEPOIS DO INFERNO
As trs jovens sequestradas por uma dcada em Ohio (EUA) passaro por uma longa e difcil recuperao, a exemplo de outras vtimas de violaes semelhantes. Especialistas explicam por que esse tipo de criminoso vive na fronteira entre loucura e sanidade
Natlia Mestre

Uma carona inocente que se revelou um passaporte para o inferno. Assim comea a histria de terror que viveram Amanda Berry, hoje com 27 anos, Gina DeJesus, 23, e Michelle Knight, 32. Sequestradas h cerca de dez anos pelo ex-motorista de nibus escolar Ariel Castro, 52 anos, em Cleveland, no Estado de Ohio (EUA), as jovens passaram todo esse tempo como escravas sexuais dele. Inicialmente, viveram acorrentadas e amarradas no poro, onde apanhavam, sofriam tortura psicolgica e eram violentadas. Mais tarde, foram autorizadas a habitar o andar de cima, onde as janelas eram cobertas. Mas ao longo de uma dcada s puderam ir ao quintal duas vezes  e usando disfarces. O calvrio terminou na segunda-feira 6, aps um vizinho ouvir os pedidos de socorro de Amanda e chamar a polcia.

TORTURA - Da esq. para a dir.: Gina De Jesus, Amanda Berry, entre a irm e a filha, e Michelle Knight viveram amarradas e acorrentadas na casa

Os detalhes so estarrecedores. Michelle contou  polcia que ficou grvida cinco vezes, mas em todas as gestaes Castro a deixou passar fome e bateu em sua barriga at ela abortar. Ele a obrigou a fazer o parto da filha de Amanda, Jocelyn, hoje com 6 anos, que foi concebida no cativeiro e nasceu numa piscina de plstico na noite do Natal de 2006. Ele ameaou matar Michelle se a menina no sobrevivesse. Num momento, o beb parou de respirar e a jovem fez respirao boca a boca at ressuscit-lo. O monstro de Ohio no hesitou em capturar Gina, uma amiga de sua filha, Arlene Castro, ento tambm com 14 anos. Estou devastada e envergonhada com a notcia, disse ela, que mora com a me e frequentava a casa do pai na poca. Enquanto mantinha Gina acorrentada, Castro distribua panfletos sobre seu desaparecimento e chegou a confortar a me da jovem numa viglia no ano passado. E, numa demonstrao de sarcasmo, celebrava os aniversrios dos sequestros, oferecendo s meninas jantar e bolo especiais. Depois de libertadas, as quatro vtimas seguiram para um hospital. At a sexta-feira 10, trs j haviam voltado para casa. Mas, agora, tero pela frente um difcil recomeo.

Histrias semelhantes que chocaram o mundo, como a das austracas Natascha Kampusch, que fugiu depois de oito anos em cativeiro, e Elisabeth Fritzl, que por 24 anos ficou presa no poro da casa onde era estuprada pelo prprio pai, so exemplos da dificuldade de se recuperar e viver uma vida normal depois de tantos anos de crcere e torturas. Existe um componente fundamental, que  a capacidade de resistncia de cada pessoa. Uma combinao de gentica e experincia afetiva antes da tragdia, que envolve a relao com os pais, a f, as experincias desafiadoras na vida, diz Stephen Joseph, membro da Sociedade Britnica de Psicologia e autor do livro What Doesnt Kill us (O que no nos mata, em traduo livre), que relata o trabalho de recuperao aps tragdias.

FESTA - Parentes de Gina celebraram a volta da jovem aps nove anos sequestrada

O que a pessoa viveu no cativeiro, no entanto,  o principal. Se ela teve acesso ao mundo exterior, nem que seja pela tev ou por jornais, se estava com outras pessoas, se recebia o mnimo necessrio, como comida e condies de higiene, tudo isso faz diferena. Quanto mais as respostas para essas perguntas forem sim, maiores as chances de uma vida normal, afirma Peter Suedfeld, professor de psicologia da Universidade de British Columbia, no Canad, especializado na recuperao de vtimas que passaram por longos perodos de traumas. No inferno de Ohio, as jovens viviam, inicialmente, isoladas umas das outras, mas depois Castro permitiu a convivncia no poro. A filha de Amanda, porm, nunca soube o nome de Gina e Michelle. Ele, s vezes, saa com a criana e no queria correr o risco de que ela falasse demais. 
 Sadas do inferno, as trs iro se deparar com um mundo bem diferente. Amanda, por exemplo, enfrenta a ausncia da me, Louwana Miller, que morreu de infarto em 2006, com 44 anos. Segundo parentes, ela sucumbiu  tristeza diante do sumio da filha. Por trs anos, Louwana foi incansvel nessa busca, participando de passeatas e programas de tev. J Gina, em sua primeira noite em casa, nao conseguiu dormir no quarto, pois ele lembrava o cativeiro. Ficou em uma cama inflvel na sala, rodeada pela famlia.

A descrio do sequestrador  outro ponto chocante da tragdia. Em seu perfil no Facebook, Castro se intitula um homem apaixonado por motocicletas e por tocar baixo. Em seu ltimo post, em 2 de maio, afirma: Os milagres realmente acontecem, Deus  bom. Ele era visto como uma pessoa tranquila, que gostava de brincar com as crianas. Vizinhos contam que foram a churrascos na casa dele e nunca viram nada estranho. Ele, porm, tinha antecedentes criminais. Foi detido por violncia domstica  deslocou o ombro, quebrou costelas e o nariz de sua ex-mulher  e perturbao da ordem pblica em 1993. Eu sou uma me com dor. Tenho um filho doente que cometeu um crime terrvel, disse Lilian Rodriguez, me de Castro, que est preso, e cuja fiana foi estabelecida em U$ 8 milhes. Na casa onde vivia h 21 anos, a polcia encontrou uma carta, escrita em 2004, na qual ele dizia: Eu sou um predador sexual. Eu preciso de ajuda. O texto ainda revelava que ela havia sofrido supostos abusos de seus pais e tio. Esses indivduos possuem uma espcie de dupla personalidade. So descritos como pessoas amigveis e, ao mesmo tempo, possuem vidas isoladas. So extremamente egocntricos e no possuem nenhum tipo de remorso ou piedade pelos seus atos. So pessoas com srio transtorno de carter, incurveis, e que vivem permanentemente na zona entre a normalidade e a loucura, afirma Guido Palomba, psiquiatra forense e autor de O Livro dos Psicopatas: :oucura e Crime.

Em uma carta de 2004 encontrada na casa, Ariel Castro se descreveu como um "predador sexual" que precisa de ajuda

Palomba aponta ainda um trao em comum desses criminosos: a convico de que no fazem mal para suas vtimas  pelo contrrio, tratam-nas bem, pois do presentes, casa e comida. O algoz da austraca Natascha Kampusch, por exemplo, lia histrias para ela dormir e lhe dava beijos de boa noite. Jogavam juntos jogos de tabuleiro e ele chegou a dar vrios presentes, como videogames e livros. Ao mesmo tempo, obrigava a menina a realizar todas as tarefas domsticas seminua e, quando ela atingiu a puberdade, passou a ser obrigada a satisfaz-lo tambm na cama. Natascha fugiu, mas ainda no se recuperou da tragdia. Hoje vive sozinha, apenas com seu peixe e suas orqudeas, e tem a cabeleireira como melhor amiga. Por caminho semelhante parece seguir Michelle Knight, a jovem americana que ficou por mais tempo em cativeiro: 11 anos. Enquanto Amanda e Gina celebravam o reencontro com a famlia ainda no hospital, Michelle estava sozinha em sua cama. Em entrevista ao jornal espanhol El Pas, sua av Deborah Knight disse que a neta no quis contato com a famlia. No entendo por que ela se recusa a nos ver, disse. Ela teria recebido apenas seu irmo e seu filho, Joseph Knight, fruto de um estupro sofrido na adolescncia.

A recuperao de quem passa por um trauma desses est relacionada ao cativeiro. Se a vtima teve acesso ao mundo exterior, se estava com outras pessoas e recebia comida, as chances aumentam


2. CRAQUES DA PROPAGANDA
s vsperas da Copa das Confederaes e do Mundial no Pas, ex-astros da Seleo Brasileira voltam a faturar com a imagem 
Wilson Aquino

NA MDIA - Cafu em ao: Com um pouco mais de R$ 50 mil j se consegue me contratar

Pel, Rivelino, Carlos Alberto Torres, Cafu, Ronaldo Fenmeno, Ra e Vampeta. Craques da bola? J foram. Agora eles so estrelas da publicidade. E, em poca de Copas  das Confederaes, em junho, e do Mundo, no ano que vem , voltam a faturar muito com a imagem construda nos gramados em tempos ureos. Parei de jogar futebol e essa  uma maneira de ganhar uma graninha extra, afirmou  ISTO o capito do pentacampeonato Cafu. Os cachs variam de acordo com o jogador e com a campanha. Pode ser mdia completa, uma nica apario em eventos, lanamento de um produto, jantar de confraternizao, festa de fim de ano, jogo de futebol. Cada coisa tem seu preo. Mas com um pouco mais de R$ 50 mil j se consegue contratar o Cafu, revela o ex-jogador, que faz propaganda, atualmente, para cinco grandes empresas.

 O que Cafu fala com sinceridade e sem alarde  tratado como segredo de estado por agncias publicitrias, anunciantes e ex-atletas de modo geral. Todos alegam clusula de confidencialidade. No entanto, especialistas do mercado consultados por ISTO dizem que as cifras variam entre R$ 80 mil e R$ 200 mil. Depende da importncia da celebridade e do trabalho, avalia Amir Somoggi, diretor da BDO Brazil, empresa de marketing esportivo. Essas pocas so as melhores. Aparece trabalho pra caramba, afirma Carlos Alberto Torres, 69 anos, que teve a honra de levantar o caneco do tricampeonato em 1970, no Mxico.

Torres, que est na campanha da Brahma, ao lado de Cafu, Ronaldo Fenmeno e Vampeta, tambm  embaixador de gigantes multinacionais como a Audi e o carto Visa, est fechando um negcio de licenciamento de produtos com seu nome e no faz palestra por menos de R$ 50 mil. Para Rafael Plastina, diretor da Nielsen Sports, as empresas gostam de ter ex-craques como garotos-propaganda porque so atletas que tm o nvel de risco muito baixo na associao da imagem com as marcas, j que tiveram uma carreira limpa. Mas, para o professor de MBA em marketing esportivo da Escola Superior de Propaganda e Marketing de So Paulo, Celso Forster, a preferncia por ex-atletas tambm se deve  superexposio dos dolos atuais na mdia. Confunde a cabea do consumidor, que no guarda as marcas que esto associadas ao craque, diz. A opinio  compartilhada por Plastina, da Nielsen: O Neymar  o atleta mais lembrado e admirado pela populao. Mas, quando perguntamos as marcas que ele anuncia, os consumidores deram o nome de 93 empresas diferentes. Neymar, porm,  garoto-propaganda de apenas 11 marcas.  


3. O BRASIL PRECISA IMPORTAR MDICOS?
Governo decide trazer seis mil profissionais de sade cubanos para as reas mais remotas do Pas, onde, apesar dos salrios mais altos, brasileiros no querem se estabelecer. As associaes mdicas reclamam que isso no  a soluo
Nathalia Ziemkiewicz

Encravada na trplice fronteira Brasil-Colmbia-Peru, Tabatinga  uma cidade amazonense com cerca de 50 mil habitantes. Quando um dos moradores das comunidades ribeirinhas do rio Solimes adoece, tem de torcer pela visita de um barco da Associao Expedicionrios da Sade ou de enfermeiros, pois mdicos por l so coisa rara. Os poucos doutores que circulam so imigrantes ilegais dos pases vizinhos, em busca de remunerao mais atraente. Os brasileiros no aceitam trabalhar nesses locais sem infraestrutura, afirma o mdico Ricardo Affonso Ferreira, presidente da ONG. S aqueles muito idealistas mesmo. Na regio Norte, a mdia  de um mdico para cada mil habitantes, segundo pesquisa divulgada em maro pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Diante desse diagnstico alarmante, o governo anunciou na segunda-feira 6 um acordo para importar seis mil mdicos cubanos para os municpios brasileiros geograficamente isolados e carentes de assistncia do Sistema nico de Sade (SUS).

INTERCMBIO - Mdicos cubanos (acima) sero deslocados para atuar em regies carentes de profissionais de sade, como a Amaznia (abaixo), desprezadas pelos colegas brasileiros

A ideia ganhou fora meses atrs, quando a Federao Nacional de Prefeitos (FNP) pressionou o governo federal a encontrar solues para a falta de mdicos em locais como Tabatinga. Embora ofeream vagas com salrios mais altos que os das grandes cidades, as prefeituras do interior e periferias no conseguem atrair profissionais de sade. Enquanto isso, a populao clama por atendimento. Sugerimos a contratao de mdicos ibero-americanos, com idioma semelhante, diz Jos Fortunati, prefeito de Porto Alegre e presidente da FNP. No Itamaraty, o chanceler Antnio Patriota considerou a cooperao estratgica e promissora. Cuba  muito proficiente nas reas da medicina, farmcia e biotecnologia, afirmou. Em junho, a presidenta Dilma Rousseff deve assinar um decreto para oficializar a deciso que sair dos cofres do Ministrio da Sade  ainda no se sabe se os vistos sero concedidos de forma definitiva ou provisria.

Os conselhos regionais e associaes de medicina criticaram a medida, chamando-a de irresponsvel e temerria. Isso porque, para atuarem no Brasil, todos os mdicos com diploma no Exterior so obrigados a prestar o Revalida, exame em portugus que testa a qualidade da formao profissional. Em 2012, apenas 11% daqueles que estudaram em Cuba foram aprovados. O resultado chama a ateno. Primeiro, porque h um mdico para cada 175 cubanos, um excelente ndice  no Reino Unido, essa proporo  de um para 600. Segundo, porque a medicina do pas sempre foi exaltada, motivo de orgulho e prioridade do Partido Comunista. Talvez a formao generalista dos cubanos seja um dos empecilhos ao desempenho na prova brasileira. Vice-presidente do CFM, Carlos Vital acredita que o curso de medicina de muitas universidades latino-americanas nem sequer equivale ao nosso de enfermagem no Brasil.  comum encontrar um ensino precrio e instituies que so verdadeiras arapucas, diz Vital. Para ele, seria indigno oferecer pseudomdicos para a parcela mais vulnervel da populao, atendida pelo SUS. As associaes mdicas classificam o acordo Brasil-Cuba de eleitoreiro. Alegam que a poltica pblica eficaz seria a destinao de mais recursos para o setor, um mnimo de 10% da receita bruta da Unio, para aprimorar toda a rede de servios de sade gratuitos.

CONTRAMO - Dora e o irmo Marcos foram buscar o diploma mdico em uma universidade na Bolvia

O ministro da sade, Alexandre Padilha, defende que o assunto no seja tratado como um tabu. Na Inglaterra, quase 40% dos mdicos foram atrados de outros pases, diz. Faltam profissionais de sade perto da populao. Ele cita a crise econmica de pases como Espanha e Portugal como possibilidade de intercmbio que beneficie os brasileiros. Mas o problema central no  a quantidade de mdicos, e sim a desigualdade na distribuio deles pelo Pas (confira no quadro abaixo). Desde 1970, o aumento no nmero de formados foi de 557%. Porm eles tendem a se fixar onde existe um mercado estruturado, com condies de vida, hospitais equipados, cobertura de planos de sade, remunerao digna e formao continuada. Poucos aceitam se mudar com a famlia para uma cidade sem boas escolas, opes de lazer ou mesmo um local de trabalho que no oferea recursos mnimos para atender os pacientes. Os profissionais de locais sem infraestrutura desistem do emprego porque sentem a frustrao de assumir uma responsabilidade sem os instrumentos para exercer de forma adequada sua profisso, diz Vital.

Mesmo os estrangeiros mais entusiasmados com a chance de atuar nas paisagens longnquas tm mudado de ideia rapidamente. Nos ltimos dez anos, dos 6.980 mdicos que revalidaram o diploma para trabalhar no Brasil, 42,22% esto no Estado de So Paulo e outros 16% em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Ou seja, nada garante que os seis mil cubanos consigam se estabelecer e povoar os locais que mais precisam deles. A situao poderia ser amenizada, segundo os mdicos, com a criao de planos de carreira, a exemplo do que acontece na magistratura. Estabilidade e boa remunerao pesam muito para os mdicos, afirma Mrio Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (USP) e coordenador da ampla pesquisa de demografia mdica. Por enquanto, o Ministrio da Sade oferece, desde 2012, o Programa de Valorizao do Profissional de Ateno Bsica (Provab). Trata-se de uma bolsa de R$ 8 mil por ms com acompanhamento de universidades para os mdicos que se instalarem no interior e nas periferias das grandes cidades. Mas o programa no tem atrado muitos candidatos.

Na contramo da importao de profissionais de sade, estudantes tm sado do Brasil para cursar faculdade de medicina em pases vizinhos, animados por anncios na internet que vendem pacotes para intercmbio com mensalidades baratas e sem vestibular. Aos 32 anos, Dora Flores de Navarro, de Tabatinga, frequenta o quarto ano de medicina na Universidade Privada Aberta Latino-americana, em Cochabamba, na Bolvia. Os pais comerciantes se esforam para enviar os US$ 130 de sua mensalidade e de seu irmo, Marcos Davi, que est l pelo mesmo motivo. Os dois miram-se no exemplo de Sara, a irm pioneira formada na Universidade Privada Aberta Latino-americana e empregada no Brasil. No foi fcil, mas, se ela conseguiu revalidar o diploma, acho que a formao que recebemos aqui atende s exigncias do Revalida, diz Dora. Em 2012, dos 411 mdicos que estudaram na Bolvia, somente 15 foram aprovados na prova, um teste de critrios bem rigorosos. Mesmo Portugal, com o melhor desempenho, garantiu a entrada de apenas 37% dos seus profissionais.


